sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Relato de uma (ex) atleta

- Eu quero esse tempo reduzido dona Ana. Você tem chances de, no mínimo, um terceiro lugar.
Foram essas as últimas palavras que eu ouvi, antes de ir para o balizamento, esperar a minha prova. Talvez um dia eu extraia todos os relatos desse diário de atleta para contar essa minha história para as pessoas compreenderem que, não basta só se ter amor pelo esporte ou por qualquer coisa que você se faz. Nada cai do céu. E como o meu próprio técnico diz "Se natação fosse fácil, se chamaria futebol."
Enfim, voltando ao que importa, que foi a minha prova de 800m livre, o Kiko após dizer as palavras, me olhou de um jeito exigente, do tipo: É bom você pegar uma medalha e abaixar esse tempo, senão nem volta pro hotel...Brincadeira. Mas parecia bem isso mesmo. 800 metros era uma prova demorada. Mas eu não tinha o que reclamar. Fui eu quem pediu pro meu técnico me colocar nessa prova. Não sou fundista nem velocista, então nadar 'um pouco' mais não faria mal pra mim. A minha raia era a dois. Não gostei, odeio raia do canto porque a água bate na parede e volta pra mim, criando 'ondas' bem na hora que respiro. Mas tudo bem, encarei. Segundos antes da outra prova terminar, enquanto eu aguardava o término dela, passei o olho na arquibancada. Meu técnico assobiou, como forma de me encorajar e de não me assustar com o tamanho das outras atletas. Falando nelas, também passei o olho nelas e realmente me assustei. Eram todas enormes, fortes, que pareciam muito tranquilas ao saber que iriam nadar uma prova de 800 metros. Acho que quase todas ali eram fundistas. Uma menina da raia 5 olhou pra mim. Sorri pra ela como forma de que eu, era 'amiga' dela, que eu não tinha nada contra ela, mas que na hora em que caíssemos na água, era cada uma por si. Foi um erro. Ela me olhou de cima a baixo, deu uma risadinha, colocou o óculos no rosto, ajeitou a touca e virou a cara pra mm. Aquilo me deu um calafrio. Me arrependi de ter sorrido. Me alonguei mais um pouco, ajeitei os óculos e a touca. Estava pronta. Subi no bloco e me concentrei apenas no som do disparo. Caí na água. Minha saída foi esplêndida.
Toda vez que eu respirava e virava pro lado da arquibancada, conseguia enxergar o meu técnico e meus amigos, tanto da minha equipe quanto as outras equipes, amigos meus de outras cidades. Aquilo me dava mais segurança. E confiança.
Passaram-se 400 metros e eu ainda tinha pique pros outros 400 que ainda faltavam. Nessa metragem eu estava em segundo lugar. Senti um puta orgulho de mim mesma, mas ainda podia faltavam 400 metros. Até que... Dei uma braçada 'fora do tempo' e na hora da virada pros 450 metros, engoli um pouco de água. Tossi embaixo da água achando que era só um imprevisto, nada mais. Bem que eu queria. Na virada pros 550 metros, o lado esquerdo do meu óculos fica frouxo (acho que foi de tanto usar aquele óculos. ah, e de tanto jogar ele na piscina também, provavelmente) e a cada vez que respiro entra mais água dentro do óculos. Aquilo começa a me irritar e fico desesperada. Ainda estava em segundo lugar, mas a terceira colocada estava me alcançando. Nos 650 metros minha touca sobe um pouco e eu realmente começa a entrar em pânico. Por conta do nervosismo, aquilo foi me cansando fisicamente (até porque eu já havia nadado 600 e poucos metros) e mentalmente. Ficava repetindo sem parar: Calma Ana, você vai conseguir, você vai conseguir... Até que, nos 700 metros o lado direito do óculos entra água e, uma das minhas pernas trava. Aí não tive outra alternativa a não ser fazer um grito mental: FODEU, AGORA. Eu tentava enxergar, mas a única coisa que eu enxergava era a parede, nem as outras nadadoras eu não conseguia. Minhas pernas ardiam, meus braços ardiam, minha respiração começou a ficar pesada, o cloro já estava irritando demais os meus olhos, porque mesmo com os dois lados do óculos cheios de água, eu tentava enxergar algo. Último 25 metros, tentei resgatar alguma força de mim. Fiquei pensando que no final, todo aquele sofrimento, bem no final da minha prova, não tinha sido nada de mais, que eu ainda iria pegar alguma colocação e abaixar o meu tempo. Bati a mão na parede. Primeira coisa que fiz foi olhar pro placar de tempo. Eu havia aumentado dois segundos. Queria morrer! Aí eu me dei conta da colocação. Já tinha nadadora até saindo da piscina. Fiquei em quarto, por bastante diferença da outra menina. Não tive outra escolha a não ser desatar a chorar de tanta raiva de mim mesma. De tanto ter suado a camisa pelo trabalho difícil e dar tudo errado. Talvez no futuro, caso eu não seja mais atleta, eu consiga enxergar que esse é apenas uma das provas que eu vou ter que enfrentar na minha vida. E muitas vezes me desapontar, como meu próprio técnico disse. Mas nada, naquele momento, nenhuma palavra, nenhum gesto, poderia fazer a minha decepção cessar. Retomei o fôlego e saí da piscina tendo em mente que, mesmo que eu tinha perdido aquela medalha e aquele tempo, eu não tinha desistido. Tinha me esforçado até o último milésimo de segundo. E então, ergui a cabeça. Eu sabia que superaria aquilo.






Catarinense de Inverno, 2008
Extraído do meu diário de atleta.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Essência

Existem duas pessoas em mim. O que eu faço e o que eu sou. São pessoas diferentes que, aos olhos de muitos, são absolutamente iguais. No entanto, tamanha semelhança não justifica tanta confusão. Caixas cheias, contendo toneladas de decepções são empilhadas a cada vez que o que eu faço entra em conflito com o que eu sou. E não há como juntar as pessoas em uma. São almas feitas para serem somadas, não subtraídas. Se houvesse algum jeito de fazê-lo, os verbos ser e fazer seriam um só, com o mesmo significado. Não confundam.