- Mãe, você sabe que dia é hoje? – Otávio perguntou para a mãe, já sabendo sua resposta. - É sexta, finalmente. - Sim, mas? – ao que tudo indicava, sua mãe ou não queria falar sobre aquele dia para não magoar o filho, ou também porque talvez podia ter esquecido daquela data. - Mas o quê, meu filho? É só mais um dia qualquer. Tirando o fato de que hoje começa o seu Brasileiro de Inverno, não há nada de mais!
Otávio deu meia volta, pegou a sua chave e foi para sua casa sem se despedir da mãe. “Hoje é dia 20, sexta-feira. Fico feliz que ela tenha se lembrado da minha competição, mas será que ela lembrou somente disto?” ele voltava para casa, perdido em seus pensamentos. Quando chegou em casa, foi direto para seu quarto terminar de arrumar sua mala. Ele ainda tinha três horas antes de se encontrar com seu técnico e seu amigos da natação, para todos irem viajar. Ao terminar de se aprontar, decidiu passar na casa do técnico; Otávio apesar de morar sozinho e adorar isso, às vezes se sentia muito solitário. E a dor, agora parecia nunca cessar, depois que Luana havia colocado um ponto final na história deles. Respirou fundo, pegou sua mala e algumas barras de cereais para comer no caminho. Saiu de casa às pressas, mesmo não estando atrasado. Otávio chegou no ônibus, com o técnico e os amigos, já avisando para todos que sentaria sozinho e não queria ninguém ao seu lado para lhe incomodar. Mas Ana não o escutou e, sentou-se ao seu lado. – Ana, eu adoro você, mas saia daqui, quero ficar sozinho. – ele resmungou entre os dentes. – Ota, hoje é o Brasileiro de Inverno! Você treinou tanto por ele! Por quê esse mau humor todo? - Hoje é sexta-feira. – ele disse a palavra como se fosse a coisa mais nojenta do mundo. – Ai, meu Deus. É hoje, né? Dia vinte... – ela se lembrou a tempo. – Pois é, mas tudo bem Ana... Desculpa pela estupidez... pode sentar aqui, foi mal... – Não Ota, não precisa se desculpar, eu entendo esse teu temperamento. Vem cá, não fica assim não. – e dizendo essas palavras ela o abraçou.
Minutos antes de sua prova, vários de seus amigos o incentivavam, falando coisas como “Manda ver, Ota!”, “Vê se explode, né rapaz!”, “Encarna o Phelps, hein!”. Mas, apesar de ter treinado tanto, ele não estava com a cabeça na prova, coisa que, como bom veterano, ele sabia que era errado; ele devia estar concentrado na competição, na sua prova. Mas ele estava com a cabeça em alguém. Em uma data. Dia vinte de Janeiro. Há um ano atrás, ele estava com ela. E mesmo ela tendo terminado com ele há dois meses atrás (tempo que ele achava que passaria rápido e superaria logo) ele ainda pensava nela. Ele ainda amava ela. E há um ano atrás, que foi o início deles, mesmo depois de tanto tempo, ele ainda sentia a presença dela. “Foi nesse mesmo clube em que nós nos conhecemos, há um ano atrás, quando ela ainda era atleta. Foi inevitável não me apaixonar. Ela nadava, era maravilhosa, corria atrás dos seus sonhos... pena que desistiu. Mas nunca vou culpar ela. Com aquelas ‘amigas’ delas, sempre colocando ela pra baixo e nunca a incentivando... eu também não aguentaria.” Pensava Otávio, relembrando pedaços de conversas, desabafos que Luana fazia para ele quando estava arrasada. – Ota, vamos lá você consegue! Boa sorte na sua prova! Quero ver você lá no pódio, viu? – gritou Ana. Ele levou um susto, seu fluxo de pensamentos havia sido quebrado. – Ah, obrigada Ana. Só você pra me animar nesse dia, nessa situação. – ele deu um meio sorriso. – Ana... – disse, hesitante. – Sim Ota, diga-me. – ela disse, atenciosa. – Eu ainda... Eu sinto tanto a falta dela... Eu ainda... – ele não conseguia terminar a frase. – Eu sei Ota, eu sei. Olha lá, ta quase na hora da sua prova. – e por fim, ela o abraçou. Era a hora dele.
Otávio conseguiu abaixar o tempo e pegar uma medalha de ouro. Ele se sentia glorioso e feliz, o técnico não parava de comemorar pela vitória de seu atleta, mas Otávio ao mesmo tempo, não parava de pensar em Luana, imaginando que se ela ainda nadasse, ela estaria ali, comemorando com ele. Mas era só um desejo seu, era impossível aquilo acontecer, afinal Luana já havia parado de nadar fazia muito tempo. E de repente, no fundo, ele conseguiu ouvir Ana gritando “Ota, não falei que eu ia te ver no pódio, não falei?” e ao lado dela havia alguém. Otávio tentou identificar, mas não conseguia; Ana e a outra pessoa estavam muito longes. Ele esperou. Quando identificou quem era a outra pessoa ao lado de Ana só conseguia pensar que aquilo era impossível, que era algum problema na cabeça dele, mas que não podia ser verdade. Sim. Era Luana. Ela se aproximou dele, lhe deu um abraço e disse – Parabéns, Otávio. Eu já sabia que você estaria aqui, e bem com essa colocação. Primeiro lugar. É isso que você merece. Esforço e dedicação são seus sobrenomes. – ela se afastou um pouco dele e percebeu uma lágrima nascendo no olho de Otávio. – Me perdoe Ota, eu... Eu... – e foi a vez dela começar a chorar. Otávio enxugou sua lágrima e disse – Sim. Eu também. Ainda te amo. – Meu Deus, você nunca diz essa frase. Parece até que é mentira. – Você tem dúvidas, sua boba? É óbvio que eu ainda te amo. Sempre te amei.
Um último pensamento da autora; De vez em quando, nossas expectativas não se cumprem, nossos desejos não se realizam e ficamos frustrados pelo esperado não ter acontecido. Mas, às vezes, devemos agradecer pelo esperado não ter ocorrido. Porque o esperado é que nos mantém firmes, móveis... O esperado é apenas o começo. O inesperado é o que muda as nossas vidas.
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário